Nacional 2




Se um dia desejarem atravessar experiências e enriquecerem-se de emoções saídas dos mais variados aspectos antropológicos sem saírem de Portugal : - Peguem em 300 gramas de roupa (de inverno, umas "graminhas" mais!) , em sabão azul, estojo de higiene pessoal, na vossa BICICLETA preferida, em remendos, câmara de ar, "arranja-correntes", bomba de ar e capacete, e percorram, se faz favor, a Nacional 2 de Norte para Sul ou de Sul para Norte.

São só 737 km de puro Portugal, com todas as suas memórias e características bem regionais. A riqueza e a verdade vão encontrar no olhar ou sorriso da gente local por que passarem.
- As pausas e dormidas ficarão de acordo com o vosso ritmo, como é lógico.  Por 20 ou 25 euros tem-se a sorte de dormir, tomar banho e jantar, e por vezes com direito a pequeno almoço. Bom ai já é necessário ter sorte ou aquela sensibilidade de viajante... 
Como há vias rápidas muito próximas (excetuando Santa Comba Dão) a estrada está quase votada ao abandono, e dai o benefício, pois estaremos a bicicletar em estradas com história e onde se percebe que muitas memórias ainda habitam, resistem e se perpetuam.
Melhor do que descreve-la é percorre-la e depois recordá-la.
Tenho a certeza que por mais fotos que vos mostrasse ou palavras bonitas que dedilhasse nunca vos conseguiria mostra a monumental beleza e pacata tranquilidade do seu escondido percurso.

A EN2, atravessa Portugal Longitudinalmente e passa por os mais variados aspecto da rica antropognosia Portuguesa.
Não tirei uma única fotografia.
Gosto de desenhar...podia ter parado e criado esse momento de reflexão de mim para com a natureza com toda ela a espelhar-se no papel depois de se filtrar nas emoções do momento...
Tenho para mim que os desenhos abrem expectativas, não encerram os sonhos ou as duvidas. Mesmo um desenho imperfeito, abre, não sela ou carimba como uma boa fotografia. Desenhar é preciso...

Se me permitem um conselho do alto da minha idade (sorrisinho ...que pena ser cota... preferia ainda não ter assim tanta matéria de divagação!). O conselho que dou a todos os que adoram viajar, cruzando Continentes ou a Nacional 1 (outro sorrisinho!) colocando muitas vezes a vida em risco, é:

- Percorram a EN2 e depois falamos.

Bom! ...apesar de se perder um pouco aquela adrenalina que surge ao se colocar a vida em risco, vão, estou certo, surgir momentos de pura magia e surpresa.
Conhecem a Nacional 1 ?
EN1 e EN2 de semelhanças só têm o nome. E a primeira alavanca para tal diferença e transformação talvez resida na afeição pelo litoral e desprezo pelo interior da maioria dos Portugueses.
Já passaram por certo pela experiência de a percorrer, mesmo que tenha sido de automóvel!

Há cerca de 10 anos, em Lisboa, embrulhei uma das minhas bicicletas, e após 10 horas de autocarro encontrava-me em Chaves. Passadas tantas horas de viagem foi reconfortante a dormida numa acolhedora e até pretensamente luxuosa pousada, por sinal a mais cara do meu périplo: a travessia vertical de Portugal. Nos outros dias por cerca de vinte e poucos euros encontrava dormida, com duche privado e jantar. (Sim foi possível! ...mas já foi há uns aninhos!)

Bem eufórico estava nessa primeira noite já com a bicicleta montada numa arrecadação da pousada. Como bagagem trazia o que habitualmente reservo para esse tipo de travessia de curta duração, só o suficiente depois de alguns cálculos.

Uns anos antes tinha rasgado e guardado as paginas de uma revista que descrevia num artigo fantástico o percurso de uns jornalistas por essa mítica e antiga estrada, a Nacional 2.
Viajavam de carro mas seduziram me na forma como narravam a sua aventura.

Sabia que um dia chegaria o momento de tornar úteis essas folhas rasgadas.
Concretizei essa experiência, como referi acima, há anos.
A Nacional 2 é um fascínio. Percorrê-la é ficar a conhecer como de facto Portugal e a sua geografia mudam e influenciam quem a habita.
Ao passar dos quilómetros, e é interessante referir que sempre em cada km que passa aparece o respectivo marco com a indicação dele..e há 776 marcos de pedra com os kms esculpidos!..encontrarmos nesse percurso aparentemente vertical se observarmos a cartografia a introdução perpendicular das várias regiões e morfologias diferenciadas do território, e damos conta não um Portugal profundo como é gíria dizer-se, mas o nosso Portugal ali todo diferenciado e verdadeiro, sem o turbilhão ofuscante das grandes cidades que quase nunca nos deixam perder-mo-nos nos detalhes.

Se excluirmos o estranho susto na serra do Caramulo, quando me sentia perseguido por um velho camião sem conseguir perceber a cara do condutor. Parava para que ele me ultrapassasse e mais à frente encontrava-o parado e ainda sem condutor. Claro que me recordei dos filmes de terror nas longas e desertas estradas Americanas, e procurei no bolso o útil e pequenote canivete Suíço!(sorriso maroto!)
A história só acabou quando sai da estrada e o deixei passar...
À parte esse estranho episódio, tudo o mais foi um fascínio de descobertas, de cores, aromas, sabores e emoções, que paisagens, gentes e arquiteturas me ofereciam.

Há uma altura em que essa Nacional, como que parada no tempo e sem movimento, por tudo se ir movimentar nas próximas IPs e autoestradas, se deixa engolir por uma dessas vias rápidas.
Estamos em Santa Comba Dão e é só aí, tal como na exemplar N1 de portugalidade espontânea e de efusiva complexidade comunicacional - (a Rua da Estrada _ editarei crónica ), que a bicicleta se torna um elemento vulnerável e o seu condutor fica sujeito a pavores.

Com exceção do troço de Santa Comba Dão à Raiva, em que nos anos 80 a Barragem da Aguieira a submergiu, a N2 nunca mais se interrompe.
Ao nível do piso (alcatrão da estrada) as modificações, de bom a mau, acontecem ao passar-se por jurisdições autárquicas distintas.
Mas o que é fascinante, fascinante, é sentir as mudanças fortes percetíveis e pouco suaves da paisagem.
Experiência única atravessar de norte a sul Portugal na Nacional 2

obs:
...aqui ao lado (na net!) encontram muitos testemunhos de ciclistas que fizeram a N2,  num blog do Jorge Santos tem mais informação detalhada, para o caso de querem aprofundar este tema e não serem surpreendidos se um dia se meterem à estrada!

Estou a pensar promover e organizar  um passeio de bicicleta por esta fantástica Nacional :)
Alinhavam?

Obs: Esta crónica foi  já publicada no Biclalx em 2013

Desejo de boas experiências em Estrada
Eliseu 2018
Desenho de João Catarino


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