Um amigo que jogava hóquei no gelo

Ilustração de Sofia Morais editada no Jornal O Pedal
Vou  compartilhar a Memoria de um Amigo que tal como eu tinha um sonho antigo e muito recorrente. 
Um amigo que se deslocava também num veículo de duas rodas, vulnerável apesar de ter um motor. 

Esta manhã pedalava forte obrigando a minha velhinha Proflex 957 a galgar rápido o asfalto (prometo num outro dia de nostalgia falar dela!) e a dado momento veio me à memória o filho da Gisela e do Álvaro que vi crescer e transformar-se em companheiro de jogos de hóquei no gelo!
O destino era Lisboa.
A noite em Sintra tinha sido muito agradável. (sorriso malicioso!)
Acordar em Sintra olhar o Céu e ver lá bem em cima um Castelo Mouro, que agradável é.
Em dias de nevoeiro ele até se suspende no ar, outras recorta-se para alem das nuvens.


E sentir a frescura de todo aquele verde no meio de Palácios de pedra com coberturas ou torres neogóticas e neomanuelinas, é de facto uma experiência fantástica... e, com sorte em alguns pontos até temos a promessa de mar, com a Praia das Maçãs ou a Ericeira e muitos azuis a perderem se na distância...
Atravessar alguma da zona Saloia até Belas, aí abancar num pequeno-almoço substancial e levar os famosos “Fofos” para os colegas que nos esperam lá mais à frente, continua a ser gratificante pelo sabor, e claro, pelos sorrisos de agradecimento.

Essas pedaladas são de facto o preço de momentos tão deliciosos como estes de atravessar terras saloias desenhadas na distância que separa o local onde se acorda do outro para onde se deseja ir.
E tudo pára e muda ao entrar-se na Amadora. Aí por vezes até o clima!
Tudo menos o acolhimento do dono da velha loja de fruta.

Há anos que me diz que um dia compra uma bicla elétrica, depois da convencional conversa das vantagens dos 3Ds. (sorriso!). Sim, os 3Ds da tal mistura inteligente dos ciclistas urbanos ao juntar Desporto, Deslocação e Despesa controlada.
A CIRCULAÇÃO como é evidente é pela estrada nacional 250, a maior rua da Europa segundo a teoria do amigo Teodoro.
Foi numa das curvas depois da Tala, onde agora só se perpetua a memória daquele momento, que já há alguns anos, dirigindo me em final de dia para Sintra em descida e não havendo carros, tranquilamente seguia quase no meio da estrada, mas ainda na chamada “minha mão”.
E tranquilamente também devia estar o condutor do 7 toneladas de ferro, até quando avistou tão frágil ciclista em direção frontal.
Aí, dizia, hoje a memória do Fernando tornou-se presente.
Naquele final de dia de Agosto passado, a pouco mais de cem metros de sua casa o meu amigo e colega desportista não teve a mesma sorte. O acidente foi frontal.
Os Pais já não o esperavam para jantar porque ao que me disseram lhes ligou a dizer que não ia.
Nesse mesmo momento acabado de chegar à Czech International Hockey Camp não percebia bem porque  não me apetecia estar na pista como os outros!
Era a hora do Fernando.
Ao outro dia saído da pista gelada, já com o sol de Verão no rosto suado olhava incrédulo o que lia no ecrã do Telemóvel.
As árvores altas de Nynburk a 50 metros junto ao rio foram o refúgio para o meu corpo pesado.
Há uma extensa pista ciclável percorrida também por patinadores, carrinhos de bebes, passeantes, atletas.
O Fernando sempre mostrou vontade de estar também ali, aquele era o local onde devia estar agora.
Não olhava para lado nenhum mas sentia a vida fluir como todos os rios sabem fazer connosco. Pensava na matéria e na energia dela! Que diferença haveria entre mim o banco, a árvore ou o rio.

Nos infinitos fins de jogos no gelo da Praça da Figueira do inverno passado, ouvia o Fernando dizer que andava a juntar dinheiro distribuindo pizas, e que no próximo ano me acompanharia.
E não reparei de onde apareceu aquela criança que ainda nem sequer falava (Checo entenda-se). Veio ter comigo e pelo modo de olhar queria dizer me algo...  olhou-me intensa e inquietamente, depois sorriu... A mãe admirou-se de tal atitude e chamou-a. Foi-se afastando e olhava-me. Depois voltou a sorrir e fez-me adeus.
Prometi nessa semana jogar pelo Fernando.
Jogaria vigoroso, com destreza e alegria, tal como ele… aprender rápido?… isso já não prometia, sou cota!
Nos dias seguintes parecia um pedófilo a passar à frente de outras criancinhas Checas, e claro, até tive sorte em não receber um murro!
Nunca mais nenhuma se dignou olhar-me!
E Que força foi aquela que dois dias depois me levou ao mesmo local onde sempre que ia  me sentia bem?
Quando recebo o telefonema de Lisboa anunciando o momento em que o corpo do Fernando descia à Terra, percebi o que não queria acreditar antes.
Através daquela criança o meu amigo veio conformar-me e despedir-se.

Hoje acredito que esteja num Palácio no Céu.
Ficamos sensibilizados.?.. leio e RE leio e enterneço me sempre ...oxalá nunca o tivesse escrito!
... Este texto já saiu  publicado no Fantástico Jornal Pedal, nº14

Pedaladas Seguras.
Eliseu

Obs: Este texto foi riscado poucos meses depois do Fernando nos abandonar!. Há mais de 3 anos ... O  local na estrada para (ou de) Sintra que sempre que por ele passo me lembra o Fernando_ Fez com que um dia ao parar a bicicleta dedilhasse este conto! 

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