Pedalar e transpirar (texto longo)



Andar de bicicleta, mexe com o preconceito, com a gestão de energias e com o nosso espaço de conforto.Desgasta e envolve todo o corpo, desde os dedos dos pés aos dedos das mãos...
Andar de bicla é muito exigente, cansa e desgasta. Temos que dizer isto.
A evolução humana tende a livrar o individuo do esforço e a dar-lhe tempo, prazer e glória. É, não é?
Culpamos a revolução industrial como a grande causadora do problema de massificação e descaracterização da vida social e urbana... Ora vejamos...
A chegada da tecnologia industrial, que vem de facto resolver necessidades da crescente evolução demográfica (e criar outras, evidentemente), e resgatar muita gente que vivia na alegria do campo a trabalhar de sol a sol e que seguia o ciclo e o hilariante ritmo secular dos períodos que a natureza estipula, deu lugar à ambiguidade da produção e evolução do conhecimento criando a ilusão que todos teriam uma vida melhor.

Com uma mudança radical e um esforço inicial grande, (se o valor prevalecer!) de facto na cidade uma maioria ganhou estatuto e maiores rendimentos e deixou de andar de aspecto andrajoso e passou a haver um tecto para cada família _veja a história do vestuário da família ou da habitação social e o aparecimento de utopias - (Familistério de Godin em 1859, por exemplo!).
Acabámos por nos rodear todos de úteis utensílios! Um pouco também por culpa da Bauhaus. Basta olhar à volta... Está a vê-los?

Define-se então que com a Revolução Industrial ao nível tecnológico e a Revolução Francesa nas ideias, se deu a evolução, crescimento, desenvolvimento e por aí fora. Se estiver em desacordo escreva-nos e refile, que nós gostamos de polémica!
Continuemos a pedalar por palavras e ideias...
Nasce, com o desenvolvimento tecnológico, a simbologia do êxito que se associada à lógica, à racionalidade, à massificação e ao valor da quantidade.
...As utopias criaram as cidades ideais e lançaram conjecturas, repito, de que poderíamos com esforço ser todos iguais, e que a tecnologia distribuiria as ferramentas necessárias ao óptimo e elevado desenvolvimento humano, e todas essas novas ferramentas e o urbanismo se esvairiam em conforto... Poderíamos divagar nos conceitos de conforto e bem estar! Automóvel... E ciclismo. (fica para um outro dia!)... Hoje já estou a alongar-me de novo.
A racionalidade platónica que inventa a excelência e desenvolve conteúdos cria também uma outra nova máquina poderosa, de produção e desenvolvimento do desejo, e trata de criar necessidades e dependências - Chega a publicidade assumida.

Será que actualmente a exaustão do vigor da qualidade dos produtos que desejamos criar como únicos e em quantidades exageradas justificadoras de lucro, e distribuir por todos em todos os lugares, encheu-nos e paralisou-nos? ...Não será?... Parece que somos de facto o resultado da excelência mas também da perversidade, da perfeição e da especialidade que nos suga e dirige para o canal da tirania, da "superlatividade", e também que alguns grupos de produção maciça esgrimem paradoxos e descontextualizações quase desumanas! ...Se assim for é quase natural que de há uns tempos para cá resvalemos no excesso e nos afundemos!
O suor e o cansaço das laborações agrícolas e campestres deixaram de ter prestigio, a máquina guiada com discernimento ao "toque" e ao sabor da inteligência virou exemplo das metas contemporâneas... O transpirar em excesso terá que dar lugar ao suave perfume, e as vestes amarrotadas à camisa alva, limpa, que no branco encontra o seu símbolo.
Se é ciclista diário... ...ou é um ciclista que transpira ou é um ciclista que não transpira... eh! eh!
E o meio termo? aqui impõe-se a dualidade simples.. (outro sorriso!)
Se não transpira... Bom, sem ofensa, faz um simples esboço do que é bicicletar. (Leia até ao fim e não se ofenda!)
E agora nasce o problema... Em tudo o que é deslocação a velocidade aparece e associa-se ao prazer. Então os objectos com meios de elevada potência tornam se sempre perigosos por motivos óbvios (as motas, por exemplo), mas fascinantes, sobretudo para tipos de espírito predador, os tais que os antropólogos classificam de machos!
Mas mesmo sem a potencia surge a velocidade ou a velocidade relativa.
Ai estão o dowhill e as descidas em neve na montanha.
Energia, tempo e espaço, outra trindade que fomenta juízos científicos e nos condiciona.
Mas voltemos à bicicleta...
Onde quero chegar?

Que só há dois tipos de ciclista... E no meio só a passagem de um ao outro... O lento e o rápido... O que transpira (emite cheiros) e o que NÃO gera espontaneamente esses líquidos corporais com odor que todos conhecemos. - Suor!
O que mexe o corpo e que é elástico como um gato VERSUS o ciclista de pau!..o lento e sempre limpo.
Se anda pouco a sua condução é perigosa, tirará prazeres da observação mas não da velocidade e do intrínseco perigo ... Mas pode sempre passear-se com aspecto muito chique... Até o admirarão.
E se tiver uma bicla de bom gosto então parte corações.
Mas se já começou muito lento há muitos e muitos anos e se já fez km e km e até já nem tem pachorra para ler divagações loucas como as de hoje...!
É então um ciclista rápido que até pode encontrar o prazer nesses loucos alleycats, e que de casa ao emprego ou ao encontro com os amigos demora menos que qualquer transporte, desde que seja no perímetro da nossa cidade de Lisboa, evidentemente... É um ciclista que observa pouco a envolvente, mas sente-a, bem como a adrenalina inerente do perigo e da velocidade! (É um ciclista que transpira!)
O que fazer com esses líquidos naturais nascidos do esforço?

Aí tem que contar com o tempo em que, já no espaço de chegada, se tem que refrescar, lavar, perfumar, mudar de roupas … Por vezes até de meias... Pentear-se... Ou seja, apresentar-se com aquele ar que a nossa actual civilização exige...
Meu caro, apresente-se com um ar limpo, caso contrário um dia começa a interrogar-se por que é que se tornou uma pessoa impopular no seu grupo de amigos e companheiros de trabalho, e questiona-se... (outro sorriso... despreocupado!), porque será que quando chego eles saem da sala e por vezes me segregam? Eh! eh!
Infelizmente para nós ciclista urbanos o mito de Titã ofuscou o de Fausto, a mecânica quantitativa de Newton, Copérnico, Aristóteles e Galileu prevaleceu sobre a corrente naturalista, qualitativa e orgânica fundamentada por Paracelso no século XVI e que se perdeu. (leu para onde o levámos? então está a perceber melhor.. :-) ...)
Caso contrario (se Paracelso tivesse sido mais convincente!) os signos e os símbolos da corrente naturalista da MÃE natureza prevaleceriam sobres os sistemas do mundo tecnológico... Brrr...
É por vezes um ciclista rápido que anda de cabeça baixa e acelera... Então lembre-se...
Quando é rápido ou anda muitas vezes por dia sentado no selim, é natural que o meu caro amigo ciclista transporte esses odores descaracterizados de que vimos falando (em linguagem popular, cheira mal.)
E porque estipulamos que o suor é algo pejorativo, está com um problema! (Paracelso não vingou, lembra-se?)..(e se passa muito tempo a pedalar sentado tem outro problema... mas disso falamos outro dia depois de indagar especialistas da próstata!)
Então caro amigo(a) se SUA será estigmatizado porque vive no limite (e não muito longe) do anacronismo de um costume e de um sentimento que criámos e que está em consonância com a época em que vivemos... Tecnológica, burocrática, produtora e consumista de ideais baseadas em iconografias.
Nunca, MAS NUNCA, ninguém lhe vai dizer da pestilência em que incorre fruto de muito pedalar e do possível descuido diário nascido do descontrole de uma logística muito exigente trabalhosa e algo repetitiva e monótona. E mais lhe digo, caro leitor, pode até perder a pessoa amada... (sorriso..mas este triste!)... De tanto pedalar fiquei solteiro... eh! eh! (brincadeira!).

Eu próprio tenho muita dificuldade em dizer a um amigo que está a cheirar mal, para se ir lavar...
Mas...
Se nunca, lhe irão apontar os maus odores que transporta... Então, convém recordar-se sempre que após o movimento deve-se envolver-se em áureas plenas de boas fragrâncias!.. (sorriso malicioso!)
ou...

Se como já referimos há bem poucas décadas as instalações sanitárias como as conhecemos hoje ainda só eram apanágio de espaços nobres, e a evolução natural concedeu-nos o conforto que todos devíamos ter de direito e vamos tendo, NÃO estará na altura de se começar também a exigir zonas de balneário nos espaços laborais para os trabalhadores que se desloquem de modos menos elitistas?
Ou dito de outro modo, começarem a criar-se zonas de higiene intima em espaços públicos e de trabalho para pessoas comuns, uma vez que o esforço e os meios mecânicos mais simples são também actos e elementos naturais!



Com o meu desejo de PEDALADAS LIMPAS.
Eliseu
Obs: Este texto já foi publicado no Biclalx

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