Porque uso capacete



Não te esqueças de levar o chapéu, está muito sol. Exige a mamã.
Não gosto desse chapéu, faz-me muito calor na cabeça... argumenta o puto... paff... (chapada ligeira)
Mas levas e não se discute... E a cena foi-se repetindo e as chapadas aumentando de intensidade.

E assim, quando com uma BTT a acompanhar amigos nos passeios pela montanha, se dizia: "uso obrigatório de capacete", usava-o sem pestanejar, não fosse o guia dar-me uns "lambefes"!
Por todos os anos que se seguiram odiava ter que usar qualquer elemento na cabeça. Chapéus de coco, chapéus de velhos! Boinas ou outros artefactos de proteção. Luxo ou pretensa defesa, como aconteceu com os capacetes de ferro no exercito.

Ando há algum tempo para escrever sobre este tema muito polémico. A ideia surgiu quando me veio parar aos pés e ás mãos uma bicicleta sem mudanças!
Pedalei durante alguns dias por Lisboa com essa tipa de uma única velocidade, e então a controvérsia invadiu-me.

Não era uma radical fixe, tinha travões e roda solta.
Nas descidas deixava-a simplesmente ir… se pedalasse seria em falso por mais rotações pernis que fizesse… A subir fazia um esforço monumental, nomeadamente na calçada do Combro ou em outras semelhantes.
Em declives mais suaves, sim funcionava bem.

A utilidade deste tipo de simplificação é que, em vez de ter que se pensar e pressentir a relação ideal que só aparece com a concentração e a experiência, ao se necessitar de "mudanças" nestes casos basta a intensidade da força a aplicar no pedaleiro.
Ou seja o desgaste é mais físico e menos mental. Menos mecânica, menos desgaste de material, logo menos despesa.
É porreiro e funcionava se não fosse um adepto de vencer barreiras, ao contrario do que defendo para quem se quer iniciar a andar na cidade. Aí digo, tanto eu como todos do BiclaLx, que Lisboa pode ser plana se quisermos, basta conhecer a morfologia do terreno para que se pedale sem se cansar nem suar!
… Então com essa bicicleta percebi que não arriscava muito não usando proteção… e que nessas andanças sem extremos o capacete se tornava até ridículo.

Espantei-me com o facto de o não usar, uma vez que desde que adquira a primeira bicicleta, no século passado, sempre tinha usado capacete - usava-o como quem usa uma camisola no inverno, sem pensar nisso!

Por essa altura da libertação do capacete estavam uns dias magníficos e, claro, a suave brisa que batia no rosto fazia esvoaçar o cabelo fazendo-me sentir o Marlon Brando ou o Mickey Rourke num daqueles filmes em que percorrem as míticas estradas da costa leste, ou mesmo as que ondulam pelos planaltos com o Rio de Janeiro como fundo, Orquidia Selvagen! Será?


Cabelo ao vento com os braços bem para cima dos ombros convenço-me o que, em caso de queda, será mais fácil proteger o crânio do que se os tivermos à altura da barriga ou mais em baixo!

Ah, estamos no capitulo das Harleys e do orgulho das portentosas biqueiras das botas à cowboy, imóveis e apontadas ao céu…

É mesmo muito fiche… acreditamos todos quando o experimentamos, quer estejam os pés parados ou em rotação à volta de um eixo. O que é necessário é sentir a liberdade que o vento provoca na pele desenvolvida a partir de um movimento …com uns raios de sol presentes melhor, apesar de também ser adepto da chuva no rosto, dispensando neste ultimo caso o senhor ventinho!

Estamos então todos de acordo que numa Harley-Davidson o capacete só desfigura, não compõe de modo nenhum a imagem!

Um dia em Londres, quando constatei dos inúmeros acidentes fatais sobretudo nos cruzamentos, reparei que os londrinos e os que por lá se passeiam e circulam de bicicleta raramente usam capacete!… À pergunta feita a alguns foram me dizendo que assim os carros são mais cautelosos com os ciclistas por os sentirem mais vulneráveis, e que por sua vez estes, ou seja os ciclistas, pedalam com muito mais atenção e concentração do que se tiverem um duro carapuço na tola, que por lhes transmitir uma falsa segurança se descuidam!
 E num atropelamento não há capacete que nos salve!

Ora eu iria nessa só que… Ora deixem me contar as vezes que aterrei de cabeça quando menos esperava?… não vou contar muitas dessa tristes historias… sem dúvida que se tornava fastidioso!



Episódio .1
Ainda bttista, tinha terminado de fazer várias dezenas de kms pela mítica serra de Sintra. Até não estava muito fatigado e trazia nos lábios aquele sorriso de felicidade que só esses muitos quilómetros de “pedaleio” nos oferecem.
Nessa altura se bem me lembro até andava todos, mas todos os dias na montanha, e experimentava os cavalinhos e as... (como se chama a manobra de mudar de direção só com a roda da frente apoiada?)... pois isso. Ou seja, era destro no pedaleiro compreendem?

Então na Volta do Duche para aí a uns 20 km/hora um carro aperta, e ciclista e máquina entram num estranho rego junto ao passeio do lado do alcatrão e prosseguem sem descarrilar até ao términus… foram frações de segundos… esse carril terminava numa poça!

(seria uma caleira de drenagem improvisada e clandestina (sorriso triste)
Por curiosidade ainda há poucos anos lá permanecia essa súbita e estranha caleira!
…E no final da poça dá se a cambalhota e a queda de cabeça…
Só que a queda não se produziu para o alcatrão mas sim sobre uns mal pensados separadores baixos parecidos a umas espadas mas que devem ter orgulhado o seu criador. Arquitecto? Espero que não!

Olhando a História é fácil perceber que separadores de áreas e funções estão há séculos pensados, nomeadamente pelos Romanos. Do solo sobem até à cintura e têm terminações amigas do corpo, ou seja sem arrestas vivas!


Historia dois…
Grande fila de carros "no pára arranca"… a inteligência e vaidade de um ciclista irá provar que numa bicha a bicla é muito mais rápida que automóveis a circular pelas nacionais Portuguesas em "fila indiana", e ainda para mais numa povoação às nove horas da manhã em época escolar!
...Claro que bastou um peão cruzar uma passadeira para um deles travar a fundo e a travagem posterior do ciclista, muito mais profunda e sem ABS, o fazer aterrar com a cabeça no para-choques desse condutor respeitador das regras de trânsito.
Claro que com o capacete nem se sente tal impacto…! aconteceu-me


Terceira e ultima história
…ainda há poucas semanas!
Viro-me para um amigo que ia de carro para o mesmo local que eu e olhando-nos nos olhos desafiamo-nos para um duelo... Vamos ver quem chega primeiro… carro ou ciclista?!
O duelo não se travava entre condutor e bicicleta ou condutor e ciclista!
o Duelo era entre carro e ciclista
Aquela bicicleta tinha também fracos travões…
Das Olaias até à Almirante Reis o meu amigo só me via pelas costas… na subida para o Técnico apanhou-me… e ai sabia que ele teria que dar uma volta maior e cá o Gato cortaria pela rua que está desactivada neste momento…

Só que na curva a grande velocidade e em pedalagem dá se o primeiro pequeno acontecimento - rasgão das calças prediletas pela roda dentada grande!
Ouvir o rasgão e olhar (segundo acontecimento) não deu tempo para me aperceber que o táxi que acabou de me ultrapassar quinou rápido à direita e trava para deixar sair o ocupante, engenheiro presumo, a caminho de dar a sua aula de tráfego (sorrisinho malandreco!).

Os travões nada puderam fazer e desta vez foi batidela com o pneu no táxi, cambalhota, bicla e Gato (eu) atirados magicamente por alguns metros, e o aterrar mesmo à frente do condutor e… mais uma vez o capacete não deixou que o crânio que agora estou a tentar usar raspasse no alcatrão negro e rugoso.
Que circunstâncias se podem agrupar numa mesma fração de tempo para nos tramar?…1, 2, três?
Até mais!

E que bizarro foi ver, também naquele momento, a alegria de um amigo (um outro) que passava no seu jipalhão e me surpreendeu com a sua alegria só por me ver! Por sinal é Engenheiro Civil…
Rápido disse-lhe que ligava mais tarde… dispensei o momento reservado à alegria para me cingir à desgraça!
Estava com uma bicicleta deitada no asfalto, uns arranhões pelo corpo, as calças prediletas rasgadas! um táxi e respectivo condutor em vias de me arbitrar!
E eu para ali ansioso e muito receoso pela a deliberação do taxista após o troco com o cliente (o tal engenheiro doutorado, imagino)

Durante esses momentos pensei: mas por que raio não tenho esses seguros de que toda a gente me fala?
Até o simpático Sr. José Manuel Caetano da FPCUB  um dia ao balcão do VeloCité Café, após terminar o meu primeiro desastroso Alleycat, frente a uma deliciosa cerveja Sovina me convenceu da utilidade desse seguro!
Para me convencer contou me a história de um colega que foi contra um carro muito caro acabadinho de sair do stand… e dos 3.000 euros que o seu dono pedia por tão ínfimo risco!…

Frente à escadaria monumental do Técnico e com a bela Fonte Luminosa a jorrar agua eu pensava nisto tudo e estava em pânico, até porque o táxi apresentava um enorme risco do lado em que bati!
Teria sido provocado pela borracha da roda ou o resultado da manete do travão?
Ou o Sr. taxista já vinha com aquela cicatriz de outra história?

Bom estou lixado, pensava.
E não é que então, talvez por pensar que tinha feito asneira, o sr taxista disse:
NÃO É NADA
Que alívio…
Ah! mesmo assim ainda cheguei primeiro que o meu amigo de carro, afinal estava numa prova! sem inscrição nem seguro! …lembram-se?


Quando as arbitrariedades surgem e se juntam, as calças se rasgam, os taxistas quinam e param subitamente... tudo pode acontecer. Queria vencer e venci... Desta vez sem ter que pagar 3.000 euros… uf.!.

Bom vamos ou não usar capacete na cidade no meio dos automóveis e por cima do alcatrão…?
Se andarmos devagar e com cautela nada disto acontece...!
então...
E na pista ciclável não há acidentes?
Engano
O que dizer daquele outro mortal sobre um carrinho de aço de cargas e descargas de coca-colas quando por segundos olhava os pintores acrobatas e a fachada paralela à pista ciclável da Duque de Ávila? (mais historias? ...desculpem!)
Por frações de segundos fui transportado para o dramático acidente na torre Vasco da Gama com o meu colega e amigo de hóquei no gelo, Setembro passado! (no velório do Andrey a mãe do Nando sussurrou "alguém anda a formar uma equipe de hóquei de gelo no Céu!")...

O condutor desse carrinho metálico entrou na perpendicular na pista lisa e ciclável vindo de um café em passo de corrida... imaginam a cambalhota? POIS!

E na pista ciclável do Guincho lembro o choque frontal com outro ciclista ao tentar desviar-me de uma criancinha que rapidamente mudou de direção e correu para a pista, enquanto esse outro ciclista se desviava de um carrinho de bebés!
Vi os olhos desse ciclista a saírem das orbitas enquanto ambos traçávamos no ar umas piruetas! e já no chão percebi que também eu tinha mudado de cor!

E que dizer daquele automóvel a sair do parqueamento do prédio em direcção à pista e muito tranquilamente a ser abalroado?.Desculpe..desculpe, não o vi_  justifica-se a senhora destraida!...(pista da rua Fernando Namora).Porque nas pistas cicláveis se baixam as guardas!
Menos atentos mais perigo espreita, não é verdade?

Todos já estivemos ou podemos passar por posições muito semelhantes ao "Kiss of Death one Foot", ou ao "Table Top" das BMX...
Os meus piores acidentes em quinze anos de cidade foram na tranquilidade de uma pista ciclável...
Estes dramas com maior ou menor gravidade vão acontecendo.

No BTT os elementos de imponderabilidade no terreno são imensos!
Quem anda em cidade e em montanha sabe que as diferenças são de facto grandes. Na montanha as actuais rodas 29 e suspensões melhoram a superação dessas imponderabilidades subtis e súbitas: raízes, buracos, pedras.

Na cidade e no asfalto a previsão e a concentração são essenciais, e os perigos podem acontecer também vindos de objectos móveis!


O velho ciclista que naquele verão de intenso BTT via passar diariamente numa gira pasteleira numa remota aldeia do Norte, e que numa certa tarde, no mesmo local vi em seu lugar um cortejo de viaturas a caminho do cemitério, era sem duvida um velhinho muito querido para os locais!
Nesse cruzamento, o tal local, um carro atraiçoou-o e a duvida ficou-me, aconteceria o mesmo se tivesse com um capacete na cabeça?
Bom eu uso sempre chapéu de coco... perdão, capacete, mas respeito também quem não o queira usar.


Finalmente..... FIM
Cá fica o desejo para todos de pedaladas Seguras.

Eliseu 2013

3 comentários:

  1. Caro Eliseu, no meu blogue já expliquei várias vezes a minha postura neste tema. No final acho que se resume tudo a gestão do risco, com base na percepção que temos dele. Cabe-nos a difícil tarefa de o fazer sem sermos influenciados por informação que nos tolda a nossa percepção. Um dia destes faço uma coletânea de acidentes vários de pessoas que eu conheço e que acabaram por bater com a cabeça. Nenhum deles de bicicleta... ;-) Um abraço

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    1. sim então convem começar a andar na rua tambem de capacete Eu uso capacete ..sinto me bemem o usar ...e so dou a minha opinião a explicar porque o faço...Claro que cada um é dono da sua cabeça...mas seria muito aborecido para mim convidar alguem para vir curtir a cidade num dos passeios que gosto de fazer e o convidado cair e partir...como me teria acontecido se não me exigissem a usa-lo quando fazia BTT ...o Dia em que penso partiria tinha estado 4 horas a fazer louduras na serra de Sintra,,,e na volta do Duche devagar...a 20 km/hora um carro levou me para a vala que terminava num buraco e dei mnurtal batendo de cabeça num ferro que era uma autentica faca..claro que rachei o capacete ao meio... fiquei verde amarelo..vemelho... ingredulo... Como do nada acontece o imprevisivel.. é só... Um conselho,...não uma regra..até porque eu não curto obrigações...Saudações Desportivas

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  2. Caro Eliseu, no meu blogue já expliquei várias vezes a minha postura neste tema. No final acho que se resume tudo a gestão do risco, com base na percepção que temos dele. Cabe-nos a difícil tarefa de o fazer sem sermos influenciados por informação que nos tolda a nossa percepção. Um dia destes faço uma coletânea de acidentes vários de pessoas que eu conheço e que acabaram por bater com a cabeça. Nenhum deles de bicicleta... ;-) Um abraço

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