Afinal sou Fadista


Por que sinto encanto e fascínio sempre que num bar da Andaluzia, encostado ao balcão, distraidamente, observo os cartazes das paredes?
O regozijo não está no sabor das "tapas" ou nos sons de conversas excitantes que me rodeiam - disso tenho a certeza! Há um outro mistério disfarçado de exaltação sempre que nesses bares Andaluzes os meus pensamentos divergem para outros lugares onde também estão registadas as tardes fatais de certos toureiros que se transformaram em mitos! Morrer na arena não é uma boa composição nem tem grande estética, mas cria emoção, muita paixão e deslumbramento nos chamados de aficionados. Nunca me considerei aficionado, mas observo...e admiro um matador.

A arte, se a houver, só a encontraremos  na "faena": misto de técnica, perfeição, rigor, medo e respeito! No movimento... na vibração das emoções... no entusiasmo pungente entre o perigo e a certeza ou na linha que separa o desregramento das sensações da vertigem registada no despudor da insanidade humana! A festa virá do excitante confronto contido entre a vida e a morte... essa imagem do touro negro envolto em sangue vivo é o fim, a imagem bela ou feia, mas cruel, a desolação tal como um dia a teremos que encontrar... é forte, é negativa - como também a pode ser alguma da arte!

Em minha opinião, o fim das TOURADAS pode nem representar uma perda cultural, uma vez que é evidente que as tradições violentas tenham de ser gradualmente extintas, num quadro de evolução civilizacional. Então o que se irá perder é a Festa (não confundir com espectáculo!), a simbologia de bravura e dignidade. PERDEM-SE as reminiscências da cultura marialva face à inevitável prepotência da morte e da diversidade masculina…e desaparecerá com ela o valor simbólico do poder machista. Talvez, futuramente, a estratificação social também se atenue e endureçam outras formas de culturas. Talvez também a nobreza e o poder se desvaneçam e tudo se torne muito mais igualitário… mas vamos perder o último júbilo (a guerra, essa, é que é só atrocidade!) de assistir a rituais de vida e morte de dimensão mitológica.

O imaginário masculino de poder, regozijo e honra tenderá a debilitar-se perante a contradição e alguma (muita ou pouca) mesquinhez da identidade masculina. As culturas mudam e transformam-se por serem multifacetadas e nascerem de convicções filantrópicas.

Adoro ver um Matador… Sei que “peco” por gostar do agora classificado de ignóbil e monstruoso! … As violações, a fome e a tirania não as tolero jamais… mas as TOURADAS que desapareçam de cena lentamente…assim como se morre de velhice.

Peço desculpa por simpatizar com essa VIOLÊNCIA.
Eliseu33

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