Subir á Glória

A 17 de Maio de 2013, seriam umas nove da noite, realizou-se uma corrida de bicicleta em contra- relógio aberta a todos, organizada pela Federação Portuguesa de Ciclismo com base numa investigação histórica da Ana Santos.

O que vos vou relatar é a primeira recriação de uma antiga corrida na Calçada da Glória realizada no inicio do século XX.

É a competição que conheço de mais curta extensão, 265 metros e parece-me que com o declive mais acentuado de toda a Volta a Portugal - Aproximadamente 18% de inclinação.

Difícil se não se for a passo de caracol!

Participaram cerca de cento e cinquenta atletas, amadores e profissionais, entre os quais este que vos vai descrever a festa… A “icónica” Festa Desportiva.

Quis estar por dentro e inscrevi-me.


Trata-se disso mesmo, uma subida em glória e para a Glória, qualquer que tenha sido o resultado dos atletas participantes.


Quem viu sabe que participaram pessoas de todas as idades, a partir penso que dos 17 anos, e de ambos os sexos.

Foi uma glorificação do ciclismo urbano sem duvida. Senti isso.


Sabia que iriam estar muitos ciclistas que vivem da e para a modalidade, e após o primeiro treino que fiz poucos dias antes à noite, depois de sair um pouco exausto do trabalho, reparei que deveria ter menos 25 anos para que nos últimos 25 metros o coração não tivesse que estar àquela bombagem exagerada!...eh! Eh!.


E percebi que a calçada, os carris em área estreita, e a inclinação a 17,7% (é o que dizem) sairia facilitada depois de uns treinos de estratégia adaptativa ao local.


Umas rodas grandes, uns pedais ligados a uma corrente, e ainda o auxilio de umas mudanças de desmultiplicação, tornam o ciclismo nesta cidade dita de colinas muito fácil.


Quando tento convencer os amigos que Lisboa é quase plana, há alguns que olham para mim com um ar paternalista de quem me julga saído de um hospital de loucos, e tentam explicar-me devagarinho que a cidade tem as suas colinazinhas.
Só tinha subido à Glória há muitos anos, num desses passeios “Pela Cidade Antiga” que terminam em churrasco (ainda existem?), e nessa altura subi com as duas rodinhas pequenas que esticam a corrente e pensei que era um herói quando cheguei lá cima.

Há mais de 15 anos que ando na cidade diariamente, nunca mais voltei a subir a calçada da Glória e nem imaginam as vezes que vou ao bairro alto!


Agradeço à F.P.C. o ter-me aberto de novo este caminho muito mais curto, da Baixa para tão excitante zona da Cidade Alta.


...... E com um SOM PODEROSO que se espalhou por toda a Cidade, pareceu-me, TODA A CIDADE, é dito TODO O MEU NOME COMPLETO...


Senhor E..... P.....A..... ao pódio....

Estrutura metálica húmida (o pódio), bicicleta, pedais de encaixe, piso adjacente molhadíssimo (calçada polida),... e perspectiva das 4 linhas de carris polidos em direcção ao céu. Ou seja, todo um conjunto de fragilidades reunidas em vésperas de um momento tão poderoso e exigente, era confrangedor.


Está pronto?

Aí estava de facto, finalmente, o meu minuto de Glória! (sorrisinho! convém lembrar!)


5.. 4... 3... 2.. PARTIDA.
O meu modesto nome a ser berrado em megafones, flashes de fotógrafos e de filmagens, gritos de motivação e incentivo, palmas, e tudo passado num corredor estreito a caminho do Céu de Gloria, balizado ainda por umas superfícies de grades que separavam um intenso publico entusiasta. Foi de facto uma experiência única.

Teria, com aquele incentivo, batido SEM DUVIDA o meu recorde das sete vezes que subi nessa semana, quando por lá passava à noite, ou até ao meio dia a caminho de casa.


Tive pena de ter que esvaziar os pneus de 110 para 40 psi, e de subir sentado no selim, coisa que nunca faço quando subo. Sem essas duas idiossincrasias a bicicleta recusava-se a sair do lugar!

Teria sem duvida ganho uns segundos (sorriso campionês!).


Mas ao fim e ao cabo o que ganhamos todos?... Mesmo aqueles que fizeram metade do meu tempo? Eu sei e digo, se mo permitem - GANHAMOS a certeza que de facto a cidade pode ser plana se nós quisermos. (que mania a minha! sorriso tímido!)


Explicando-me melhor, treinar a subida da Glória faz com que todas as outras ruas INCLINADAS da Cidade DEIXEM de o ser - pelo menos pareçam não o ser! (agora sorriso bastante mais largo!)


Nota final:

Estivemos todos de parabéns, mas em especial o Ricardo Marinheiro pelos seus 39,76 segundos, e claro, a minha velhinha Pro Flex 957 pelos seus 76 segundos.

Ela, como calculam, é já um ícone do BTT dos anos 90 e na atualidade está toda transformada para estrada. Penso que em breve será requisitada para um MUSEU!:)



Boas Pedaladas.

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