



"Lisboa [...] onde todos os que bebem água, não tem mais de um estreito chafariz para tanta gente [...] e deve de trazer a Lisboa Água Livre que de duas léguas dela trouxeram os Romanos, por condutas debaixo da terra, subterrâneos furando muitos montes e com muito gasto e trabalho."
Escrevia assim em 1571 Francisco de Holanda, numa referencia ao projecto do aqueduto no tratado "Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa"
Como sabemos Francisco de Holanda estudou em Roma e conviveu com muitos personagens notáveis do renascimento italiano, nomeadamente Miguel Ângelo. Dai talvez o interesse pelo "glamor" do classicismo.
Ao rei D. Sebastião tentou Francisco da Holanda sensibilizar para a importância da necessidade e carência de grandes obras que Lisboa necessitava para se tornar digna do império marítimo português.
Por coincidência ou não duzentos anos depois o procurador da Cidade, Cláudio Gorgel do Amaral, propôs o reatamento do projecto e, pela sua insistência e pela memória que elaborou em 1729, o Rei Dom João V pondera e toma uma atitude bem enquadrada no espírito iluminista da época ao autorizar por alvará régio em 12 de Maio de 1731 a construção do Aqueduto das Águas Livres.
Houve muitas razões para a justificação desta obra.
A explosão demográfica de Lisboa na época dos descobrimentos,
A necessidade de prover as embarcações que constantemente demandavam o porto de Lisboa e que exigia grandes dispêndio de água,
E também o surgimento de saudáveis hábitos de higiene.
Em 1720 existiam 200 000 habitantes em Lisboa - na zona Ocidental previa-se a criação de Praças monumentais de gosto Barroco e uma nova frente fluvial com infraestruturas Navais. Pretendia-se a construção de um novo conjunto arquitectónico que albergaria o poder temporal e o poder espiritual- Igreja Patriarcal.
Para o projecto da Opera do Tejo, o arquitecto Giancarlo Bibiena chega a Lisboa já com os planos.
Em 1717 o ano do inicio da construção do palácio de Mafra Filippo Juvarra têm a incumbência de desenhar o palácio Real e uma nova Igreja Patriarcal para Lisboa Ocidental, no sitio de Buenos Aires tido como o local adequado.
Se o desejo do rei de criar o 5º império na Lisboa dividida, e construir a opera do Tejo e nova patriarcal e um novo Paço Real já com projectos de arquitectos italianos convidados, a questão que se coloca é porque os suspendeu e se virou para essa grande obra de caris iluminista e Barroco que veio beneficiar uma população que há muito Falecia como já desde 1571 Francisco de Holanda referia.
O Quinto Império é uma crença messiânica, milenarista (quiliástica), concebida pelo padre António Vieira no século XVII.
Terá o rei sido sensível também a essas correntes iluministas, à geometria sagrada e às superstição com o divino absoluto que os arquitecto engenheiros militares e construtores lhe iam propondo
Quando numa investigação para uma rota cultural de bicicleta por trilhos de água me deparei com o Aqueduto, senti que ele era o símbolo e a construção realizada por grandes arquitectos e mestres pedreiros para uma cidade que se pretendia gloriosa e incentivei me para uma investigação mais profunda!
O troço principal tem 14 174 metro que atravessam vales e relevos geografias inóspitos e agrestes, sempre conduzindo esse liquido frágil num canal aberto com uma pendente suave dentro dentro de uma conduta (túnel) com passadeira para pessoal de manutenção e limpeza com clarabóias de iluminação desde o seu inicio ao objectivo para que foi concretizado- Os Chafarizes.
Possui vários pequenos aquedutos subsidiários também chamados de ramais de ligação e somados atinge os 47 km recolhendo agua de 58 nascentes, sendo a maioria da serra da Carregueira.
Há 5 galerias de abastecimento da cidade_ Loreto, Esperança, Rato e Necessidades e Campo de Santana com um total de 11 km que saem da extremidade do aqueduto e reservatório chamado de Mãe d'Água das Amoreiras e que por galerias as encaminha para os chafarizes públicos
desenhados com grande monumentalidade e que criaram espaços publico de grande prestigio. Por na altura serem o local de recolha desse bem essencial que como diz João Medeiros em !As marcas de agua" é também Fonte de vida, Purificação e Centro de regeneração
Desafio os meus amigos a imaginarem se em 1762 próximo do Chafariz da Rua Formosa (hoje rua do Século) magnificamente desenhado por Carlos Mardel na praça em forma de meia-laranja em frente ás casas do futuro Marquês de Pombal . Iria sentir a azafama da quatro companhias com 132 Aguadeiros e um ligeiro (viatura puxada a bestas) e controlados por 4 capatazes. Esses trabalhadores organizados vestiam-se com cores garridas de modo a chamara a atenção e distribuíam a agua em barris de madeira e a força braçal por todas as casas das pessoas que lhes solicitavam e pagavam.
A certa altura foram obrigados por decreto a servir os residentes dos andares mais elevados. Porque como se percebe e sendo o preço o mesmo recusavam.E era óbvio que esses locais eram fonte de alegrias mas também de disputas e violência.
Mas imaginem a movimentação das pessoas, o colorido dos Aguadeiros e o som das conversas a diluírem-se na aguas que jora ininterruptamente de dia e de noite pela boca das 3 carrancas em bronze.
Interessante referir que em Alcântara estão 127 arcos em 941 metros, 21 de volta perfeita e 14 em ogiva, com uma largura de 3.5m, com 60 cm de caminho de cada lado, e nos topos do corpo lanternim um respiradouro para oxigenar a água que passa na galeria.
Através de 21 arcos de volta perfeita a activação equilibrada das 7 energias nas suas duas polaridades, a agua é o peregrino que percorre o caminho e se liberta das suas impurezas.
O caminho e o movimento acompanhado da sombra e da luz vinda do sol pelas Claraboias. Esta é a grande construção que movimenta e transporta a Fonte de Vida, Purificação e Centro de Regeneração, do seu nascimento até ao centro de nós
E que misteriosa a clarabóia rectangular, das 14 janelas, o numero místico do sacrifício de Osiris, 14 vezes a caixa onde foi traiçoeiramente metido e mandada dividir e espalhada por Seth! É um propósito.:)
Há de facto uma grande Tentação em encontrar uma Justificação simbólica para o Aqueduto, ou encontrar nele a obra emblemática como símbolo de uma ideia de V império que o Padre António Vieira pregava e que o ouro do Brasil empolou?
Em 1731 foi formalizada por escritura pública a adjudicação das obras de construção do Aqueduto à sociedade dos Mestres Pedreiros que, parece não haver duvidas, eram os herdeiros e continuadores dos conhecimentos das antigas práticas corporativas de construtores.
Para terminar temos que dar especial destaque a Mestre Custódio Vieira, por colocar em prática, no final da primeira metade do século XXVIII, algumas das ideias mais inovadoras que os arquitectos, e sobretudo os construtores europeus, vão só mais tarde colocar em teoria, e que conduzirão também à revalorização da arquitectura gótica, à recolocação dos problemas centrais da arquitectura, como problemas construtivos.
Como diz Francoise Fichet, e passo a citar, trata-se da confrontação entre dois ideais divergentes que buscam os seus modelos em dois arquétipos teóricos – o Templo de Salomão (no Monte Moria na Palestina) e a Casa de Adão – que correspondem a duas concepções diferentes da arquitectura.
Para a primeira o edifício deve conter uma essência e uma personalidade próprias, que lhe são dadas pelas aplicações das ordens clássicas. Digamos que é a visão de Alberti
segundo a qual, o desenho não contém nada que dependa da matéria, o que permite imaginar
a forma de um edifício na sua totalidade, sem depender de questões construtivas.
Para a segunda o problema essencial da arquitectura envolve uma ideia de tecnologia ao serviço do homem.
Na transposição do vale de Alcântara, Custódio Vieira revela se profundamente inovador e moderno.
A escolha do arco ogival de Alcântara estava longe de ser motivada por uma visão recuperadora da idade Média, e ainda menos pela procura de um deliberado anacronismo.
Ele é antes de mais por elementos estruturais e matemáticos de uma solução para um problema prático, baseado na maior resistência e verticalidade das forças de descarga do arco quebrado. Solução que só por si revela uma liberdade e uma audácia de concepção da arquitectura como transformação da natureza, bem diferente de algum anacronismo dos arquitectos seus contemporâneos
.
O Aqueduto das Águas Livres na travessia do vale de Alcântara (o simbolismo da transposição e a imponência que a sua visibilidade provoca foi determinante também para a sua localização).Em vez de se recorrer a lances de 3 arcos sobrepostos como em Elvas temos a dignidade e a simplicidade da geometria simples.De todos os catorze arcos em ogiva destaca-se o Arco Grande. O maior arco da imponente arcaria foi a parte de mais difícil execução neste troço, e talvez de toda a obra. Mede 65 metros de altura e dista 29 metros entre pegões, sendo o maior arco ogival do mundo.
O aqueduto tem, no Vale de Alcântara, dois passeios pedonais de 941 metros, sobre 35 arcos, 14 em ogiva e os restantes de volta perfeita, "contendo o maior arco de pedra do mundo, com 65 metros de altura e 28 de largura".
Havia uma outra alternativa mas não tão eloquente!
O Aqueduto no Vale de Alcântara, para alem de servir Lisboa, constituía também um ponto de acesso à cidade.
No cimo dos seus arcos estendem se dois passeios que fazem a ponte entre o exterior e o interior, a cidade Ocidental e a cidade Oriental.
É no vale de Alcântara que se oferece a eloquência e a grandiosidade do projecto que nos superlativa como receptores de duas dádivas da natureza._A água e a sua Evanescence como reservatório de potencial regenerador, e a quase perene obra saída do conhecimento e do desenvolvimento de um corpo que essa agua potência.
Os engenheiros militares de altas patentes, Carlos Mardel, Ludovico e Manuel da Maia entre, D. João V e a população de Lisboa com a sua contribuição através dos impostos sobre a carne, a palha etc, souberam fazer uma obra ímpar de arquitectura e engenharia
Com esta obra de utilidade publica todos os que nela trabalharam souberam glorificar e preservar para sempre na pedra os mistérios da construção e tornou se sem duvida numa notável obra simbólica.
Quando a percorrer a pé ou de bicicleta repare também nas inúmeras marcar gravadas na pedra.
Ficou o rei sem o desejado V Império mas os seus arquitectos e mestres pedreiros souberam conceder à população de Lisboa harmonia, justiça e caridade.
Gostaram da viagem?
Eliseu
Gosto particularmente de fazer esta Rota da Agua ! :)
Já foi assim !
Mas também desta maneira! :)
Bom, se chegaste aqui é porque gostas deste tema_ Faço esta ROTA por encomenda para CICLISTAS _Só tens que a encomendar ....eliseubike.co@gmail.com
Abraços Desportivos
Eliseu
t.m. 968952775
















