Um texto de Daniel Lobo
O entusiasmo com que o Eliseu acolheu a ideia de fazer um passeio de bicicleta em beneficência das crianças do bairro da Torre (um bairro precário junto ao Aeroporto Humberto Delgado) foi determinante para dar um primeiro impulso a um projecto que vinha sendo planeado no GESTUAL (Grupo de Estudos Sócio-Territoriais, Urbanos e de Acção Local, da FA-ULisboa) por iniciativa de uma estagiária apaixonada por bicicletas (Cecília Obbili), que com o meu apoio (entusiasta do recreio activo – ver página da campanha Um Novo Conceito de Parque Infantil) e o dos moradores do bairro da Torre (principalmente as crianças e jovens, e outros menos jovens mas não menos entusiastas) viria a resultar numa proposta de projecto de intervenção – “Bicicletas no bairro da Torre” – que pretende promover o acesso das crianças e jovens residentes no bairro da Torre a atividades de recreio ativo ligadas ao uso da bicicleta, uma das atividades que mais tem interessado aos jovens moradores.
Nesta primeira fase procurar-se-á obter ferramentas e outros apoios para que seja possível montar uma cicloficina no bairro da Torre, e este passeio de bicicleta irá contribuir para que isso seja possível. A necessidade prende-se com o facto de só uma minoria de moradores ter acesso a uma bicicleta, e aqueles que têm passarem longos períodos sem a poder utilizar uma vez que não têm os meios (e por vezes os conhecimentos) necessários para as reparar. Numa perspetiva de capacitação, empoderamento e mobilização da comunidade, e através de uma abordagem colaborativa e de integração de actores externos pretende-se preparar os moradores (principalmente os mais jovens) para a reciclagem e reparação de bicicletas, e obter os meios necessários para o fazer.
Esperamos que mais gente se úna em torno desta causa participando ou apadrinhando este passeio, fazendo um donativo, ou entrando em contacto comigo para saber como apoiar/participar.
A situação de ocupação ilegal em que o bairro se encontra há mais de 40 anos, embora geralmente vista como legítima face à falta de resposta do Estado em matéria de habitação social, tem dificultado o investimento por parte das entidades públicas e relegado a sua população carenciada aos seus próprios meios na criação de condições condignas de habitabilidade.
O desânimo e desespero vividos por esta população aliados à sua falta de meios e à dificuldade da melhoria das suas condições de habitabilidade por parte das entidades públicas, tem criado condições higieno-sanitárias e habitacionais graves. São exemplo disso os esgotos a céu aberto e a constante acumulação de lixo um pouco por todo o bairro por falta de controlo das entidades competentes e falta de contentores e recolha do mesmo (tem propagado maus cheiros e pragas como ratos e cobras), o descontrolo da vegetação que ao arder tem posto em risco as habitações, a falta de água canalizada de 1/3 das habitações que dura há cerca de 6 anos, a falta de eletricidade que afeta o bairro há mais de 9 meses, a falta de pavimentação nos espaços de utilização comum que em tempo de chuva cria dificuldades de circulação devido à concentração de lamaçais.
A pobreza, a doença e o difícil dia-a-dia desta população de 230 moradores, dos quais 65 são crianças e jovens, torna difícil o acesso a espaços, equipamentos e atividades de recreio dentro e fora do bairro, e porventura o estigma e isolamento a que muitos estão sujeitos tem dificultado a ação no bairro por parte de entidades externas, não havendo neste momento nenhum espaço, equipamento ou atividade de recreio para a população mais jovem, somente atividades de diversão noturna para adultos.
A necessidade de recreio activo
As doenças crónicas não transmissíveis são hoje a principal causa de morbilidade e mortalidade das sociedades desenvolvidas e são as principais responsáveis por situações de incapacidade e perda de qualidade de vida, com um impacto significativo no consumo de serviços de saúde e medicamentos, representando em 2000, a nível europeu, cerca de 75% da carga da doença expressa em DALYs[1]. Os factores determinantes da saúde decorrem não só de factores individuais (genéticos, biológicos e psicológicos) mas cada vez mais de factores ambientais, económicos, sociais e culturais (estima-se que 70% dos determinantes estejam fora do sector da saúde[2]). Por isso, nos últimos 30 anos a promoção da saúde pública passou de uma perspetiva centrada no indivíduo para uma centrada nos determinantes contextuais da saúde[3], as redes e programas implementados passaram a focalizar-se em ambientes específicos com destaque para as escolas, os locais de trabalho e as cidades, e a orientar-se principalmente para a capacitação das pessoas e para a criação de condições ambientais, organizacionais e sociais mais favoráveis à saúde[4].
A Organização Mundial da Saúde, no seguimento de iniciativas anteriores, propôs em 2004 uma estratégia global para a alimentação, o exercício físico e a saúde, reconhecendo que as doenças crónicas não transmissíveis representavam 60% de todas as causas de morte e que eram geradoras de 47% dos encargos gerais com a saúde. Situação que, no entanto, exibe uma preocupante tendência para se acentuar, na medida em que no ano 2020 estima-se que aquelas percentagens subam, respectivamente, para 73% e 60%[5].
A má alimentação e a inactividade física explicam, em grande parte, aquela tendência crescente, uma vez que está comprovada a sua relação com o aumento de doenças crónicas assim como de incapacidades e de mortes prematuras evitáveis.
Tanto os factores citados como as doenças crónicas determinadas por aqueles factores (ex.: doenças cardiovasculares, diabetes, cancro, doenças respiratórias, obesidade e doenças osteoarticulares), as quais têm uma expressão epidémica que exibe curvas não só crescentes como descontroladas, têm em muitos casos, como denominador comum o facto de estarem associadas a comportamentos. É portanto fazendo uso do conhecimento sobre as relações causa-efeito dos factores de risco e das doenças crónicas referidas e desenvolvendo mecanismos de intervenção rápida e eficaz na mudança de comportamentos numa perspectiva de prevenção, que se poderá impedir cenários futuros ainda mais graves.
Há agora evidência sobre intervenções que proporcionam experiências positivas a crianças nos primeiros 10 anos de vida como determinantes para a prevenção de hábitos de vida mais sedentários durante a vida adulta[6]. O que terá repercussões positivas na educação dos filhos destas crianças, criando um ciclo virtuoso com potencial de se perpetuar [7],[8]. O período entre a infância e a adolescência é igualmente importante uma vez que as habilidades de movimento desenvolvidas nesta fase representam a base de toda a actividade física futura [9].
É também de notar a relação entre o declínio do recreio livre das crianças nos últimos 50 anos (principalmente o recreio social, ou seja, com outras crianças ou adultos) e o aumento da ansiedade, depressão, suicídio e sentimentos de desamparo e narcisismo entre crianças, adolescentes e jovens adultos internacionalmente. [10]
Para continuares a ler o texto de Daniel Lobo _ CARREGA
Para continuares a ler o texto de Daniel Lobo _ CARREGA
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[1] European Health Report, OMS, 2002
[2] Comunicado de Imprensa, Francisco George, 11 Março de 2014, em www.dgs.pt
[3] Sami Kokko, PhD Senior Researcher, Research Center for Health Promotion, em www.triple-ac.net
[4] Programa Nacional de Intervenção Integrada sobre Determinantes da Saúde Relacionados com os Estilos de Vida, DGS, 2004, p.2
[5] Comunicado de Imprensa, Francisco George, 11 Março de 2014, em www.dgs.pt
[6] Twisk, J.., Kemper, H.., and van Mechelen, W. (2000).Tracking of activity and fitness and the relationship with cardiovascular disease risk factors. Medicine and Science in Sports and Exercise, 32 (8), pp. 1455-1461
[7] Moore , L.L., Lombardi, D.A., and White, M.J. (1991). Influence of parents’ physical activity levels on activity levels of young children. Journal of Pediatrics, 118, pp. 215-219.
[8] Edwardson, C.L. and Gorely, T. (2010). Parental influences on different types and intensities of physical activity in youth: A systematic review. Psychology of Sport and Exercise, 11 (6), pp. 522-535.
[9] Okely, A.D., Booth, M.L., and Patterson, J.W. (2001). Relationship of physical activity to fundamental movement skills among adolescents. Medicine and Science in Sports and Exercise, 33 (11), pp. 1899-1904.
[10] Gray, Peter (2011) ‘The Decline of Play and the Rise of Psychopathology in Children and Adolescents’, Academic Journal of Play, vol.3, n. 4, pp. 443 – 463
Arquitecto Daniel Lobo
Este evento terá a colaboração do Arq.º Daniel Lobo, mestre em Estudos Urbanos e doutorando em Urbanismo na FA-ULisboa.
• Local de Saída e Chegada: Terreiro do Paço (Praça do Comércio)
• Hora de partida: 9h30
• Almoço: bairro da Torre, Camarate, Loures
• Chegada prevista: 17h30 (Provavel atraso_ depende do almoço! ) :)
O almoço será um prato típico São Tomense - Cachupa de Carne – e incluirá uma bebida.
Nota: quem desejar participar e não tiver possibilidade de contribuir, será nosso convidado (inclui almoço)! (sujeito a número limitado de participantes)
• Chegada prevista: 17h30 (Provavel atraso_ depende do almoço! ) :)
Inscrições
Envie por favor um email para bikeeliseu@gmail.com e no assunto indique "Inscrição Pelos Limites de Lisboa"
Contribuição para o passeio
A partir de 15€ com almoço incluído (entregue no bairro da Torre a seguir ao almoço ou até dia 30 de Setembro por transferência bancária para a conta 0033 0000 4546 1209 5120 5)
A CONTRIBUIÇÃO REVERTERÁ PARA COBRIR OS CUSTOS DO ALMOÇO E O RESTANTE PARA A CRIAÇÃO DE UMA CICLOFICINA PARA AS CRIANÇAS DO BAIRRO DA TORRE!
Para qualquer outra informação poderá ligar ao Eliseu através do 968 952 775 (de preferência depois das 18h)
Saudações desportivas,
Eliseu
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