Fado


Sentimos alegria em ganhar e pena em perder.
Uma criança dá nos a alegria da esperança, um velho a certeza do fim.
Por a criança ser a ingenuidade e o velho o conhecimento e a sabedoria, a um gostamos de ensinar aos outros de ouvir e aprender. Tenho por vezes pena que assim nem sempre seja na nossa sociedade tecnológica dita de riscos, perdas e ganhos.

A escola nos prepara para viver e não há nada nunca que nos ensine a morrer...
Não sabemos morrer mas talvez não seja necessário, se previamente não sofremos, não sentimos… Mas estar a sentir partir os outros lentamente à mediada que o nosso corpo também se torna cada vez mais precário não é fácil e talvez seja um dos maiores dramas da vida!

A Exorcizarão dos funerais no ocidente, em minha opinião que sou Moçambicano, não tem a forma e a função das chamadas tribos mais primitivas…
Dançar toda a noite ao som de um batuque e bater com as terminações (pés, pernas, até braços e mãos) na terra ou no batuque, sempre senti que nos consome e agonia no cansaço e na comunhão sacerdotal. Como sinto com todos os irmãos no mesmo circulo sempre que hoje convosco formo a cadeia de união…
Para cá da morte há uma energia que galopa na confiança nos outros e na motivação em construir.

Se o tempo que passa teima em destruir os organismos físicos, ele próprio é o arquitecto da evolução intelectual e do desejo grandioso da harmonia que a nossa fundamental substancia pretende projectar no futuro e no mundo… Muito para alem de todas as catástrofes induzidas ou naturais.

Se o tempo transforma a substância também regenera e exalta a razão, a memória e o conhecimento.
O meu pai morreu e com ele um pedaço de mim.
Sinto que algo amarrado ao passado se decepou e que tudo vai necessitar de se alicerçar e reforçar para o devir que consolide e seja depois também o passado com a minha morte.
Com os filhos que nascem também sentimos isso!

O sentido de perda é comparável ao sentimento de limite e de "finitude".
Sofremos porque sentimos e recordamos, e as ligações são feitas de memórias e geradas de múltiplas recordações…

Interrogo-me como ficam os guerrilheiros que participaram nas guerras promovidas pelos estados civilizados…! Como viverá com a sua memória um ser humano que matou ?

Cada vez mais me convenço, à medida que caminho nesta peregrinação para um termo, que os objectivos são o mais importante... Cada vez me convenço mais que tudo se tem que construir na base do amor e não do desespero, da ambição ou do ódio.

Se na juventude era agnóstico, rápido fui respeitando todas as religiões que apontam a todos os homens o caminho do bem.
Se houver uma não religião que encontre um caminho onde os homens por o percorrerem praticam o bem serei mais um romeiro dessa estrada. Tenho essa convicção!

O meu pai era um ser diferente de todos os outros, como são todos os seres diferentes uns dos outros!
O que o caracteriza e o que me consome com a sua desaparição é simplesmente o facto sentir que a corrente e o devir que me criou se quebrou…

Com o nascimento da minha filha a minha tranquilidade dissipou-se, e hoje sei que foi porque nasceu um elo que manteve (criou) uma união com tudo, todos. O universo está agarrado ao novo ser criado.
As partículas são o cosmos.
O Universo na minha visão é cada partícula de um átomo…

Acredito no que ouvi do sacerdote nas "exéquias", poucos minutos antes de deixar cair a corda que segurava a caixa de madeira com o meu papá dentro. Quando nos conformava na exortação da alma.
Sim... A alma ficou em mim, na minha essência e no sentido que dou ao universo, mas o corpo foi-se.

Mas é desse corpo que tenho saudades e de todos os tempos irreversíveis que passámos juntos.
Fica a memória dos sorrisos, das conversas, dos exemplos e das mil histórias.
Transbordam pormenores e aparentemente insignificantes narrativas. Como a daquela régua decimal que, quando um dia em que ambos em passo ligeiro e conversando atravessávamos a cidade, num segundo de paragem e na minha hesitação se apercebeu que a olhava desejando-a na montra de uma papelaria Fernandes, talvez a de Campo de Ourique. E (também) apressado entrou e saiu sorrindo com ela, saída da montra para me ser oferecida… Ali nasceu um símbolo para sempre!
Hoje ainda é com essa boa régua de duplo decímetro que rectifico os projectos com que tento construir o mundo.

Um homem de sete ofícios não fez de mim um mestre de todas as artes manuais, mas criou em mim a observação e o modo racional de resolver os problemas… E hoje sei que é isso que faz um bom arqiuitecto.

Bem haja querido pai, que foste um excelente exemplo no uso da bigorna, do martelo, da foice, do arado, do machado, da picareta.
Não, era mesmo assim. Foi marceneiro, serralheiro, trolha, electricista, ferreiro, agricultor, carpinteiro e escultor.

Para finalizar e agradecendo a todos terem ouvido este meu lamento, repito... Que a ele,  devo a iniciação nesta longa e construtiva caminhada como peregrino nos caminhos desta vida tão efémera e gratificante

Este texto que me saiu  com muito esforço e mediocridade me saiu, fez sem dúvida neste momento um ser  mais permeável às grandes causas do Grande Arquitecto do Universo (Deus), como sei era sua intenção.


Texto em homenagem a  todos os Pais deste mundo e a um grande amigo meu ...o Miguel Batista Bastos e o Rui Bota 
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Eliseu

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