O fora de regras


Vou tentar explicar porque ando em contra-mão e passo sinais vermelhos.
Pois! :)
Uma nova trindade parece que está em jogo nos conceitos sociais: os tradicionais valores europeus de liberdade, igualdade e fraternidade foram substituídos no século XXI por conforto, segurança e sustentabilidade.
Pelo menos é o que nos diz Ren Koolhas e eu comungo, também quando põe em causa as cidade ditas inteligentes e os sistemas de segurança integrados.
O ser humano parece que criou um ideal baseado numa ordenação de valores estruturantes onde a liberdade e a responsabilidade descaracterizam  qualquer procedimento utópico ou mesmo consciente mas que esteja  para alem da sua possibilidade e depois  os transformam em valores sociais . E ai de quem os questione!


Então  porque ando em contra-mão e passo vermelhos?
Porque incorro nestas infrações inquestionáveis avessas da razão e mais próximas da emoção inconsciente?

Já está a franzir a testa e nem leu até ao fim!
Dê me uma oportunidade para explicar ..s.f.f... :)

Não passo um vermelho ou ando num sentido proibido (em rua calma) no espaço estanque entre duas liberdades opostas, mas naquela área entre duas responsabilidades que a fragilidade de um ciclista deve aproximar e que deve ser-lhe permitida.

Deve ou não a nossa liberdade perpetuar-se na sensibilidade e inteligência de todos sem que as regras criadas para o êxito deste consenso nos restrinjam?
Sim... Não... Talvez?


Pois faço-o com uma razão! Porque me parece que ao cometer estas atrocidades ao código da estrada estou a ser super consciente e seguro não incomodando senão o espírito formatado em regras inquestionáveis de alguns condutores automobilísticos mais sitiados nos formalismos e conceitos enraizados.

É evidente que as regras do código da estrada têm que ser conhecidas por todos e cumpridas. Sobretudo por todos os condutores com veículos que se deslocam através da força motora.
O seu incumprimento tem um risco e uma pena.
Acho bem!
Que penalização e condenação deve ser aferida ao ciclista?

São de facto dois incumprimentos muito desiguais, mas que pagamos caro qualquer que seja a desobediência aos códigos desenvolvidos nos mais de 100 anos da evolutiva tecnologia automóvel.
Pagamos com a incompreensão, a critica, a indignação e a reprovação por vezes muito feroz.

Não somos veículos sem motor como nos querem fazer crer...
Somos pessoas (peões) que nos movimentamos com a nossa força física, a destreza do corpo como quem anda ou corre, só que usando um auxiliar que, apesar de mecânico, é leve e sem um motor que auto movimenta uma estrutura pesada e que na cidade ocupa sempre mais de 5 metros quadrados de área - o espaço mínimo de implantação dos chamados veículos automóveis!

Não temos áreas nem grandes volumes a transportar!
Chateia-o ver passar um peão pela passadeira com sinal vermelho quando está a rua deserta?

E um ciclista com a bicicleta pela mão?... Já não está tão seguro!..

Defendo que todos os utentes do espaço urbano que se movimentam na cidade devem ter como código o uso das 5 elementares regras cedidas pelos 5 sentidos.
Passas os vermelhos, é incompreensível, dizem me os amigos!...

Só cumpres as regras que te convêm! Se tens direitos tens que ter deveres perante terceiros... argumentam ainda os meus amigos e conhecidos, ou algum policia quando me apanha a infringir!..

E eu calmamente tento explicar a razão desta minha atitude que fui criando na deslocação diária de bicicleta em meio urbano e que se transformou numa postura, na minha perspetiva, sensata e ponderada.
Vamos então a uma breve descrição (significativa!)


SINAIS COLORIDOS

Determinar o tempo e o nosso modo de reagir não com o que os sinais nos indicam mas de acordo com a oportunidade (bom, isto fica entre nós!)...

"Olhemos com atenção todos os movimentos da cidade sem nunca nos fixarmos na sinalética"

Vejo muitas vezes ciclistas e automobilistas que "passaram no código" com os olhos fixos no semáforo. Só à espera da permissão do verde! E automaticamente arrancam, cegos, com a passagem do vermelho ao verde.

Um ciclista, como já referi, não transporta toneladas, nem tem um motor poderoso e uns travões ABS!
Pedalo, penso e aconselho-me: "Segue prudente, destemido(a), determinado(a), usa sempre a cautela como companheira, o capacete como acessório e a mão na manete da tua segurança: o travão".

Temos sorte por Lisboa não ser como Xangai ou Londres.
Londres a cidade onde vi uma grande quantidade de biclas brancas.
Em muitos cruzamentos confrontamos-nos com esses monumentos de consternação e de aviso de quem desejou preservar a memória do ciclista injustamente e fatalmente acidentado.

Leu acronica Bicicletas Brancas de Londres?
Do Oriente vem a construção da massa critica - a única maneira de juntos imporem um direito.

Repito para mim com tranquilidade: “Podes passar vermelhos, andar em sentidos contrários, mas deixa sempre passar tranquilamente o cidadão que se desloca a pé”.
A prioridade deve ser cedida sempre ao mais fraco.

Imagino que no futuro o ciclista terá prioridade sobre qualquer veiculo motorizado e nenhuma sobre o peão!
O Tempo virá conciliar verdades e incertezas!


25 de Abril de 2015 (quando escrevi a crónica!).
Salgueiro Maia (Capitão de Abril sob o comando de quem ainda tive o prazer de estar alguns anos depois da data histórica de Abril, na Escola Prática de Cavalaria de Santarém) quando se dirigia com a sua unidade pesada para Lisboa com o objetivo de derrubar o regime de Marcelo Caetano parava nos vermelhos e esperava pelo sinal verde...
E esta, heim?


Quem terá sido que um dia me disse: "Respeita o vermelho mas insurge te sempre contra a tirania do habito e da certeza” ...Que é ao fim e ao cabo o Vermelho como símbolo do Proibido.
Contraditório, ?

Tenho para mim que os constantes conflitos dos opostos se harmonizarão no tempo sem ter que passar pelos aforismos de Heraclitus ou pelo dialetismo de Grham Priest!

O Big Brother de George Orwell há muito que é uma realidade, basta perceber o nosso interesse pelas casas dos segredos para perceber que observar a casa da vizinha, julgarmos e votarmos com os nossos juízos de valores a vida dos outros, se tornou um acto trivial.

Se entrámos na era da contradição, da densidade, da velocidade, com o valor da vida humana refém da sublimação das experiências sensoriais, também se reestruturou e alterou a ordem espaço temporal, talvez glorificando o tempo em prejuízo do espaço que o sujeito já não ocupa porque se dissipam os lugares.
Atualmente até para um museu ou escola não é fundamental que o seu espólio ou função se desenvolva num espaço físico!

Cada vez mais também ocupamos e dignificamos o nosso espaço mental e definimos a nossa personalidade.

Há tempos, num canal de televisão talvez a propósito do terrorismo que já está dentro da nossa sociedade e não vem de fora, um teólogo da igreja católica criticava a frase mais emblemática e que sempre me irritou a propósito da liberdade.

Chamava a atenção para que a nossa liberdade, dignificação do sujeito como ser, não termina quando começa a liberdade do outro, mas propaga-se infinitamente. Até para que o outro possa comungar da liberdade de cada um e cada um da liberdades de todos.

É um conceito que deita por terra o julgamento de quem está confortavelmente sentado num automóvel com o motor à espera do verde para acelerar repentinamente e se irrita com o ciclista que calmamente passou o vermelho porque não olhou para o sinal mas sim para a oportunidade!


O que gosto de sentir nos voluntários do Refood ou da Vida e Paz não é só a sua misericordiosa bondade para com os mais fracos, que surge sempre através de um forte preconceito, mas a consciência da vulnerabilidade humana.

Dignifiquemos de novo a Liberdade e a Responsabilidade agora com o auxilio do bom senso :)
 Foi difícil de entender?...! Ok, não estás de acordo_ Respeito :)


OBS: Quando na cidade formos mais que os automóveis...Então ai ...resigno me :)

Saudações Desportivas
Eliseu

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